Uma guerra de artigos, travada nas páginas do “Estadão”, reavivou nos últimos dias o conflito que andava latente entre o governador Renato Casagrande (PSB) e sua nêmesis política, o ex-governador Paulo Hartung (sem partido).
A colunista Ana Carla Abrão, economista simpática a Hartung, escreveu artigo detonando a gestão de Casagrande, a qual chamou de “retrocesso” – título do artigo, aliás. Respondendo fogo com fogo, o governo reagiu com outro artigo, no mesmo jornal, assinado por Tyago Hoffmann (PSB), espécie de coordenador-geral da atual administração.
Neste primeiro capítulo da nova temporada da querela, os dois lados lançam mão das armas da retórica: números e argumentos.
Mas afinal, quem é exatamente Ana Carla Abrão? O que cada lado da contenda sustenta nos respectivos textos? Quais as críticas de Abrão e qual é a defesa (ou contra-ataque) de Hoffmann? Veja abaixo um resumo de cada artigo e algumas considerações do colunista.
EQUILÍBRIO FISCAL: AS CRÍTICAS DE ABRÃO
O artigo de Ana Paula Abrão começa com uma sucessão de elogios a Paulo Hartung, usando dados oficiais, repetidamente anunciados pelo ex-governador e seus colaboradores na reta final de seu mandato, em 2018. Destaque para a nota A concedida pela Secretaria do Tesouro Nacional, classificação máxima atribuída a um ente federado pelo órgão do Ministério da Fazenda.
É algo como um “selo de bom pagador”, que permite que o Estado ou município contrate empréstimos com garantias da União. De fato, em 2018, só o Espírito Santo alcançou o conceito A.
"O Espírito Santo, sob a gestão de Paulo Hartung, tornou-se exemplo de equilíbrio fiscal e eliminou de vez a falsa dicotomia entre gestão fiscal responsável e conquistas sociais. Juntamente com a única nota A do Tesouro Nacional, veio também o primeiro lugar no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb)."
O mesmo zelo com a gestão fiscal reconhecido em Hartung, a economista não enxerga em Casagrande. Ela finaliza o texto com uma senhora alfinetada no atual governador e sua equipe: “Pelo visto não entendem que a institucionalização da responsabilidade fiscal é uma ferramenta de consistência e perenidade das boas políticas de Estado”.
EQUILÍBRIO FISCAL: A RESPOSTA DE HOFFMANN
Coube a Hoffmann rebater ponto por ponto. E o revide foi pesado (o famoso “chumbo trocado”). Antes de entrar nas questões pontuais, é preciso dizer que, de modo sutil, o secretário de Governo de Casagrande chamou a articulista de mentirosa – ainda que sem usar essa palavra. Mas chegou perto disso, ao falar em “farsas compartilhadas”.
O secretário abre e fecha a sua réplica afirmando que “a verdade é uma senhora teimosa, que nunca desiste de aparecer” – o que é, digamos, uma maneira elegante de dizer que Abrão mentiu no artigo dela.
Hoffmann chega a sugerir que Abrão se insere entre os “áulicos” (cortesãos, conselheiros servis e bajuladores) do ex-governador.
Usando duas vezes o adjetivo “leviana”, o braço direito de Casagrande afirma que “a economista atacou a atual administração”, que escreveu o artigo “sem apuração” e “sem base em fatos” e que “desfia uma série de distorções e claras inverdades a respeito da administração estadual do Espírito Santo”. E exagerou para o outro lado:
"Se a economista se dispusesse a conhecer o Estado com isenção, veria que está em curso no Espírito Santo uma verdadeira revolução."
Aliás, os dois artigos tendem ao exagero, cada um puxando a brasa para o extremo oposto ao do outro: o de Abrão faz parecer que, sob Casagrande, o Espírito Santo versão 2019 está sob ameaça de descalabro social e econômico. O de Hoffmann dá a entender que todas as medidas da atual gestão são, parafraseando-o, “revolucionárias”.
Especificamente sobre a questão fiscal, Hoffmann enfatiza investimentos do governo Casagrande (escassos, é bem verdade, no período de vacas magras em que Hartung governou), mas “sem descuidar do equilíbrio das contas públicas”.
Rebate, ainda, a afirmação de que “o Espírito Santo tornou-se exemplo de equilíbrio fiscal ‘sob a gestão de Paulo Hartung’”: “Desde 2012”, lembra o secretário, “durante o primeiro mandato do governador Casagrande, nosso Estado vem merecendo nota ‘A’ da Secretaria do Tesouro Nacional”.
EDUCAÇÃO: AS CRÍTICAS DE ABRÃO
Motivo maior de orgulho do último governo Paulo Hartung – e conquista para todos os capixabas –, o Espírito Santo, de fato, no ranking dos 26 Estados e o Distrito Federal, foi o que obteve a nota mais alta no Ideb em 2018. Para Ana Carla Abrão, isso se deve ao Programa Escola Viva, implantado por Hartung em julho de 2015.
"O Estado, que ocupava a 14ª colocação em 2014, alavancou a qualidade da educação básica capixaba graças ao Programa Escola Viva, bandeira de campanha do então candidato a governador."
Segundo Abrão, no entanto, “o Espírito Santo de hoje é outro". E ela cita justamente possíveis mudanças na gestão da educação pública estadual: “A nova gestão ameaça fechar as Escolas Vivas sob alegação de que são muito caras. Ao mesmo tempo, anuncia a criação de uma universidade estadual que, sabemos, se presta mais à politicagem do que à educação”.
EDUCAÇÃO: A RESPOSTA DE HOFFMANN
No caso da educação, a estratégia de Hoffmann foi o contragolpe: “avaliação descolada da realidade”. Segundo ele, “a chamada Escola Viva foi um programa firmemente alicerçado no marketing, que gerou, em quatro anos, apenas 36 escolas de tempo integral, no universo de 450 escolas que integram a rede estadual”.
"Nossas escolas passaram os últimos quatro anos sem investimento ou manutenção e dezenas foram fechadas. A exceção, é claro, foram as 36 unidades que serviram de vitrine para o marketing governamental."
Sobre a crítica de Abrão à decisão anunciada em setembro pelo governo Casagrande de criar uma Universidade Estadual, Hoffmann argumenta que a ideia de que tais instituições “se prestam mais à politicagem do que à educação” reflete uma “visão mercantilista, ao defender como alternativa a compra de bolsas em instituições privadas como único caminho”.
Hoffmann não debateu, em seu artigo, a evolução do ES no Ideb nos últimos anos.
Coincidência ou não, o governo Casagrande anunciou nesta quarta-feira (9), dia da publicação da réplica do secretário no “Estadão”, a decisão de manter em funcionamento a Escola Viva de São Pedro, unidade piloto do programa estadual de educação em tempo integral.
SAÚDE: AS CRÍTICAS DE ABRÃO
Na gestão da saúde pública, Abrão elogiou o modelo de administração de hospitais estaduais adotado por Hartung – sustentado em parcerias com Organizações Sociais (OSs). “Na Saúde, as Organizações Sociais foram a base que permitiu a expansão do atendimento médico de qualidade pelo interior do Estado.”
Em contrapartida, condenou a mudança de gestão que o atual governo está colocando em marcha. Na semana passada, a Assembleia Legislativa aprovou, em regime de urgência, o projeto de lei de Casagrande que institui a iNOVA, fundação de direito privado que assumirá a gestão de hospitais hoje administrados pelo próprio Estado.
"É a contramão do que se fez com sucesso no passado recente e que se deveria ampliar, que é a administração privada já consagrada e a redução do Estado, foco sabido de ineficiência e corrupção."
SAÚDE: A RESPOSTA DE HOFFMANN
Mais uma vez, “a melhor defesa foi o contra-ataque”. O secretário de Governo anotou que a equipe de Casagrande “encontrou a rede estadual de saúde totalmente sucateada por falta de investimentos” e nem por isso “encomendou artigos para atacar os responsáveis”.
Para ele, é “absolutamente leviana” a alegação de que fundações públicas de direito privado para administrar os hospitais estaduais, como a criada por Casagrande, são “foco sabido de corrupção e ineficiência”.
SEGURANÇA: AS CRÍTICAS DE ABRÃO
“No caso dos policiais, o retrocesso foi ainda mais grave”, disparou Ana Carla Abrão. Ela criticou particularmente a anistia concedida por Casagrande e aprovada pela Assembleia Legislativa em janeiro, que isentou de responsabilidade os 2.622 militares que respondiam a processos administrativos e os 23 que já haviam sido expulsos da corporação.
“E ainda lhes premiaram com o pagamento retroativo de seus salários”, frisou a economista. Para ela, esse perdão “jogou por terra o efeito disciplinador de um episódio tão duro da história recente capixaba”.
A economista destaca que “o então governador do Espírito Santo não cedeu à greve”, usada como “mecanismo criminoso de se conseguir aumentos salariais”.
SEGURANÇA: A RESPOSTA DE HOFFMANN
De acordo com o secretário, a segurança pública estadual foi “entregue à própria sorte no governo passado” e a paralisação de policiais e bombeiros militares em fevereiro de 2017 foi um “movimento motivado pela total ausência de diálogo por parte do governo, que manteve postura autoritária e intransigente”.
Hoffmann destacou a retomada do programa Estado Presente, ao qual ele atribui a contínua redução dos indicadores de homicídios no Espírito Santo, mês a mês, desde janeiro.
Exceto por 2017, ano da greve dos militares, o índice de homicídios dolosos vem caindo sistematicamente no Estado desde 2009.
EXTRA: QUEM É ANA CARLA ABRÃO?
Com doutorado em Economia pela Universidade de São Paulo (USP), Ana Carla Abrão Costa atuou na indústria financeira durante toda sua carreira profissional. Foi gestora do Itaú Unibanco. Técnica respeitada no meio acadêmico, no mercado financeiro e na administração pública, foi secretária estadual da Fazenda de Goiás, de 2015 a 2016, durante o segundo governo de Marconi Perillo (PSDB). Já foi consultora do Ministério da Fazenda e já atuou no Banco Central.
Tem uma linha de pensamento muito parecida com a de Ana Paula Vescovi, secretária da Fazenda de Paulo Hartung de janeiro de 2015 a maio de 2016 e mentora do ajuste fiscal realizado pelo então governador no Espírito Santo. Portanto, também tem pensamento econômico afinado com o de Hartung.
Colunista do “Estadão” e sócia da consultoria em gestão Oliver Wyman, a economista foi uma das professoras do primeiro curso do movimento RenovaBR, realizado em 2018 e voltado para a formação de candidatos na eleição daquele ano.
Ela ministrou a disciplina “Eficiência no Governo”. Idealizado pelo empresário Eduardo Mufarej e apoiado pelo apresentador Luciano Huck, o RenovaBR também inclui, desde o início deste ano, o ex-governador Paulo Hartung em seu rol de colaboradores.